Redepaz » Encontro em Altinópolis 2002
Construindo uma Cultura de Paz
Desenvolvendo Políticas Públicas Municipais
Altinópolis 20 e 21 de Novembro de 2002

Relatório do Grupo de Trabalho para Formulação de Propostas de Políticas de Educação e Cultura de Paz

Coordenação: Laura Gorresio Roizman e Silvia Pompeia

Nosso encontro iniciou-se com o relato de experiências de diferentes grupos. São elas: Programa de  Educação em Valores Humanos, desenvolvido na cidade de Palotina, no Paraná;  o Projeto “Plugados na Educação”, da Cidade de São Paulo; e o projeto “Parceiros do Futuro”, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Estes relatos, apesar de serem provenientes de diferentes correntes metodológicas e filosóficas,  tiveram como principal ponto de convergência seu marcante engajamento na construção de propostas concretas em Educação para a Paz. Envolvem a criação de profundos laços e redes de apoio mútuo com a comunidade beneficiada.

O compartilhar destas belíssimas experiências nos levou a refletir e a concluir  que, a construção de uma Cultura de Paz na educação, e através da educação é, provavelmente, a maior urgência que temos pela frente, não apenas em escala nacional, como em escala planetária.

Vivemos em um período histórico marcado por um desafiador momento de transição, no qual as diferentes estruturas educacionais deverão estender seu abraço às ciências, às artes e às espiritualidades. No que diz respeito à educação temos, coletivamente,  por principal missão, preparar os jovens e crianças para atingirem planos de consciência  mais elevados, engajados com a prática do bem comum, formando um cidadãos envolvidos com sua coletividade.

Nosso diálogo nos levou a refletir sobre as dificuldades do percurso. Em um país marcado pelas tristes chagas da exclusão social e pelo enfraquecimento da escola pública, como trabalhar para a formação da nossa infância e da  nossa juventude, abarcando o indivíduo em toda sua totalidade sem privilegiar, apenas, sua dimensão racional, intelectual., cognitiva?

Enfim, como educar e formar mulheres e homens éticos? Tivemos como primeira  conclusão em nossa reflexão, que uma etapa fundamental do processo é a formação dos educadores. Foi consenso que caberá, às políticas públicas, traçar estratégias para formar educadores onde estes se sintam valorizados e acolhidos no que diz respeito à sua missão. È fundamental trabalhar  para o fortalecimento de sua  auto-estima e criar espaços de diálogo para que os professores possam compartilhar seus acertos, dificuldades e possam alimentar seu trabalho através das lições de vida provenientes de diferentes experiências exitosas.

Foi consenso que a Educação para a Paz, não consiste apenas em uma formação técnica, mas integral, que não pode ficar limitada a assuntos do universo acadêmico. Concluímos que temos pela frente a realização de um amplo trabalho de resgate, cuja primeira jornada está no reencontro de nossa criatividade e no resgate da arte no cotidiano da escola.

A arte possui a capacidade mágica de abrir portas que unem a razão com a  emoção, cognição com a sensibilidade. Poderá permear o desenvolvimento de todo o currículo escolar e conectar jovens e educadores com sua capacidade de transformação e de transcendência. È uma importante ferramenta para descolar o aprendiz de um estado centrado em sua individualidade, para outro de conexão e interdependência com o coletivo e o universal, do qual faz parte, e para o qual é também  o germe criador.

Discutimos também, que uma tarefa da Educação para a Paz  é resgatar a sabedoria popular, onde é cada vez mais importante uma ação educacional que forme cidadãos do mundo sem  renunciar jamais, à sua própria cultura, às suas próprias raízes, contribuindo para o crescimento da paz de todos os povos. Uma educação fundamentada no diálogo, na solidariedade e na participação de todos os segmentos da sociedade, acentuando a humanidade que nos une em detrimento das diferenças que nos separam.

Concluímos que a educação para a Paz se constrói no relacionamento humano, não pertence simplesmente ao campo das palavras e das idéias, mas torna-se viva em nossas emoções. Pois só podemos resgatar um ser humano atingido pela dor e pela violência se estabelecemos com ele uma linha mágica de conexão, através do acolhimento, do olhar, do tocar e do falar. Tais resultados, muitas vezes, são difíceis de quantificar, são intangíveis para a rigidez dos trabalhos acadêmicos, mas são a mola mestra para a evolução do mundo.

Foi consenso que, no plano das políticas educacionais, devemos ter em vista a totalidade da criança que está à frente do educador, e envolver o núcleo familiar neste processo de transformação. Envolver pais e tutores em uma construção coletiva de mudança de uma cultura pautada pela exclusão, fragmentação e violência, para uma cultura de inclusão, totalidade e de educação para e pelo amor. Um cultura  que supere os mecanismos tradicionais de discussão, punição e agressão, que muitas vezes nascem no ventre das próprias instituições familiares, para uma cultura que privilegie o diálogo, o acolhimento e o abraço.

Ouvimos o relato de lindas experiências práticas ocorrendo em Altinólpois e São Sebastião do Paraíso (MG). Debatemos acerca de acertos e dificuldades. Discutimos a importância do encontro das religiões neste processo de construção de uma Cultura de Paz, em favor do cultivo do  amor ao próximo, da não-violência e da reconciliação.

Nosso encontro terminou em um clima de grande afetividade e amorosidade. Muitos  destacaram a importância destes encontros periódicos para alimentar a construção coletiva de  uma Cultura de Paz.

Lembrei-me dos dizeres de Sófocles: A mais bela obra humana é ser útil ao próximo. Nestas simples palavras, creio eu, podemos resumir toda nossa missão como educadores. Sintetizam  a força mágica que nos faz reconhecer o outro em nós, que  nos identifica com a humanidade e com as forças divinas da criação. Assim, através desta simples, e ao mesmo tempo,  profunda  revelação nenhuma semente de violência têm terra fértil para germinar.

 

 

Associação de Municípios da  Macro Região Nordeste de São Paulo
Rede Global de Educação para a Paz

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